Dias Felizes

Extenso gramado crestado, elevando-se ao centro em pequena colina. Cai em inclinação suave para os dois lados e para a frente do palco. Para trás, queda mais abrupta, até o nível do palco. Máxima simplicidade e simetria.

Luz ofuscante.

Pano de fundo em trompe-l’œil convencional, representando o encontro ao longe de uma planície vazia e um céu idem.

Enterrada até a cintura, precisamente no centro da colina, WINNIE. Na casa dos cinquenta, bem conservada, loira de preferência, um pouco acima do peso, braços e ombros nus, decote amplo, seios fartos, colar de pérolas. Ela dorme, os braços apoiados na terra à sua frente, a cabeça sobre os braços. Ao seu lado, à esquerda, uma grande bolsa preta, estilo sacola de compras, e à sua direita uma sombrinha dobrável, dobrada, da qual só se vê o cabo emergindo da colina.

À sua direita e atrás, dormindo sobre a terra, escondido pela colina, WILLIE.”

Desta forma começa a peça Dias Felizes de Samuel Beckett.

Beckett nasceu no começo do século XX e viveu quase até seu fim. Foi um dos dramaturgos mais influentes deste período, sendo um dos principais representantes do Teatro do Absurdo. Também é autor de Esperando Godot, dentre outras peças, além de contos, ensaios e poesia.

Dias Felizes com Fernanda Montenegro e Fernando Torres, disponível em http://www.gazetadopovo.com.br

Laura Carla Franchi dos Santos nos fala sobre esta peça: “Dias Felizes, de 1961, trata-se de uma peça longa, concebida em dois atos, onde a protagonista Winnie encontra-se enterrada por um monte de terra e, portanto, não se locomove pelo espaço. No primeiro ato Winnie está enterrada até a cintura, o que lhe garante a gesticulação, a manipulação de objetos e a execução de um longo monólogo com a plateia. No segundo ato ela encontra-se enterrada até o pescoço, restando-lhe a fala e a movimentação com os olhos. Se no primeiro ato assistimos a ações inúteis desta mulher que a desvia da percepção do tempo, no segundo ato teremos apenas a voz desta mesma mulher. Com a passagem do tempo, imagina-se que Winnie será devorada pela terra, que suas palavras serão devoradas, assim como seus gestos um dia foram devorados: Eu mesma não acabarei por me derreter, ou queimar, não, não estou dizendo necessariamente em chamas, não, somente reduzida, pouco a pouco, a uma cinza negra, toda essa… (amplo gesto dos braços)… carne visível

Conheci este texto assistindo a montagem com Fernanda Montenegro e Fernando Torres. O absurdo da cena nos fala das muitas situações absurdas nas quais vivemos. Vale a leitura!

Lelê Ancona

Professora de teatro desde 1986, tenho trabalhado em todos os níveis de ensino nos últimos 15 anos, principalmente com formação de professores. Minha graduação foi em Artes Visuais, na Faculdade Santa Marcelina, em SP, mas como já fazia teatro, fiz a Especialização em Teatro e Dança na ECA/USP, onde entrei em contato com os Jogos Teatrais da Viola Spolin, que foram marcantes para minhas escolhas como docente.

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